Em entrevista que se estendeu por mais de uma hora e meia na manhã da última quarta-feira (8/4), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sintetizou aquilo que ele considera uma diferença em seu modo de governar. Na opinião de Lula, o contraste se dá entre a capacidade de sentir os problemas populares e a frieza de quem não se comove com o sofrimento alheio.
É muito fácil não querer enxergar aquelas pessoas [pobres] que estão longe, têm dificuldade de fazer manifestação. Os pobres não vêm aqui em Brasília fazer passeata, ou seja, mas é você que tem que ir lá [onde elas estão], porque se você não pensar com o coração, você não cuida dessas pessoas”, disse Lula.
Segundo afirmou o presidente durante a entrevista ao portal ICL Notícias, os lobbies organizados sobre os três poderes da República priorizam reivindicações daqueles que menos precisam.
“Não vem ninguém aqui no gabinete pedir para você cuidar dos pobres. As pessoas vêm pedir dinheiro para os ricos, liberar dinheiro não sei para quem, sabe, contra aumento de imposto, a pessoa não discute o que a gente faz com o imposto que a gente está arrecadando. São quase R$ 400 bilhões de reais em política de inclusão social. Então, eu tenho muito orgulho do que nós [Governo] estamos fazendo”, disse.
O presidente também discorreu sobre as relações internacionais conflagradas e a perda de fraternidade e de gentileza entre as pessoas: “E tem tantas coisas é que eu fico pensando, quando é que a gente vai fazer com que esse mundo volta a ser um mundo minimamente civilizado?”.
Opção melhor, porém mais difícil
O presidente afirmou que um governo pode optar pela minoria numérica, ou decidir governar para a maioria do povo, o que é mais difícil, porém de resultados melhores.
“Se você quiser tornar os pobres invisíveis, se você não quiser enxergar os quilombolas, os indígenas, se você não quiser enxergar os camponeses, você governa para 35 milhões, vai muito bem. Agora, eu quero saber é governar para 215 milhões. Eu quero saber você governar enxergando os invisíveis, aquelas pessoas que você não conhece, que você não conhece”, disse.
Eu já passei por muitas privações, eu sei como é que o povo é tratado, mas você não pode permitir isso, nós temos que rever esse conceito”, completou Lula.
Democracia além do voto
“Nós vamos ter que ter competência de explicar para a sociedade o significado da palavra democracia, porque a democracia não é uma palavra abstrata, ou seja, não é só o direito de o cidadão votar. A democracia é para esse povo cidadão votar, controlar o seu voto e exigir que as pessoas cumpram o mínimo de programa que foi a razão pela qual a pessoa foi eleita. Nós precisamos defender a democracia tendo como significado o direito elementar de todo mundo ser cidadão de primeira classe nesse país, sabe, cuidar da saúde do povo, cuidar da educação do povo, cuidar do emprego do povo, cuidar de aumentar a renda da sociedade brasileira, tentar investir o máximo que a gente puder em cultura, em lazer, porque uma das coisas que faz com que as pessoas vivam mais e mais felizes é a pessoa ter as certas coisas que ela precisa ter, todo mundo quer ter uma coisinha a mais”.
Nós precisamos defender a democracia tendo como significado o direito elementar de todo mundo ser cidadão de primeira classe nesse País”
Autoritarismo versus compartilhamento
“Eu não tomo decisão com 39 graus de febre, não existe nada que me obrigue a tomar decisão agora, eu tenho que pensar, eu sempre converso com uma pessoa ou com outra pessoa, pergunto para um, pergunto para outro, porque eu sou daquela parte da humanidade que não sabe tudo, às vezes eu não sei quase nada, e pelo fato de eu não saber quase nada, eu gosto muito de perguntar, eu gosto muito de ouvir opiniões, e tudo que eu faço, você pode ter certeza, que tem várias opiniões ajudando que eu tome a posição mais correta. É assim que eu aprendi a fazer política, é assim que eu faço política, e é por isso que meus mandatos vão dando certo.”
Compromisso com a distribuição
“É uma decisão política. Porque se depender dos políticos do sul do país, você não faz. Pra que cuidar dos pobres do Norte-Nordeste? Deixa o povo com fome. Agora, quando a gente tem compromisso, compromisso de sangue, compromisso até cristão, de tratar as pessoas com respeito e saber que todo mundo tem direito. Eu, com sete anos, eu sei o que é carregar um pote d’água na cabeça. E a pessoa carrega por léguas”, disse Lula, comentando a obra de transposição do Rio São Francisco.
A gente tem compromisso, compromisso de sangue, compromisso até cristão, de tratar as pessoas com respeito e saber que todo mundo tem direito”
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou, nesta quarta-feira, 8 de abril, em entrevista concedida aos jornalistas Eduardo Moreira e Leandro Demori, do ICL Notícias, que o governo trabalha para apresentar o quanto antes uma proposta para reduzir o nível de endividamento dos brasileiros. Segundo o presidente, o endividamento será tratado com a mesma seriedade das medidas adotadas para evitar que o aumento do preço dos combustíveis gerado pela guerra no Oriente Médio impacte a economia brasileira.
“Estamos trabalhando seriamente e vamos tentar encontrar uma solução para o endividamento da sociedade brasileira. Já fizemos o Desenrola e nós, agora, estamos outra vez preocupados”, afirmou Lula.
Vamos tentar encontrar a solução e vai ser boa. Da mesma forma que nós encontramos com o petróleo. Eu disse textualmente: a gente não vai permitir que a guerra do Trump com o Irã aumente o preço do feijão, do arroz, da alface e da cebola que o povo brasileiro come”, prosseguiu.
COMBATE AO FEMINICÍDIO – O presidente também destacou que seu governo seguirá adotando medidas para combater de modo cada vez mais efetivo uma das questões que mais envergonham o Brasil na atualidade: o feminicídio. Para ele, a educação e a conscientização, principalmente entre os homens, é um dos fatores que devem ser cada vez mais destacados quando se discute o combate à violência contra a mulher.
“Vamos pegar a questão do feminicídio, a quantidade de violência contra a mulher. Essa coisa é um negócio tão podre. Veja o machismo impregnado na nossa cultura, no nosso DNA. Nós temos que educar os homens, porque quem é violento é o homem. Temos que nos educar e temos que começar da creche à universidade. Educar o ser homem para ele saber que ele não é dono da mulher. Ele pode ser no máximo um parceiro”, afirmou.
Para Lula, no caso das mulheres, é preciso investir em outro tipo de educação: aquela que lhes permitam cada vez mais avançar em suas profissões, de modo que elas tenham independência financeira e, assim, não dependam dos homens. “Por isso que eu aposto muito na educação da mulher. Se ela tiver uma profissão, se ela estiver no mercado de trabalho, ganhando o salário dela, e se o cara se meter à besta, ela manda o cara para fora de casa”.
A gente vai conseguir. Inclusive estou mandando o Projeto de Lei esta semana para o Congresso Nacional. Então, nós vamos votar e vamos aprovar. Eu tenho certeza de que vai aprovar”
Lula deixou claro que o fim da jornada 6 x 1 defendido pelo Governo do Brasil não implicará, em hipótese alguma, redução salarial. “A ideia é a redução da jornada sem redução do salário. O que significa um pequeno aumento de ganho de produtividade. Ao invés de ter prejuízo, ele vai continuar com o mesmo salário, porque a diferença é produtividade. A tecnologia permitiu que produzisse mais, portanto o trabalhador ganha um pouco mais”, esclareceu o presidente.
BENEFÍCIOS PARA O TRABALHADOR – Para Lula, o fim da jornada 6 x 1 é um avanço que trará os mais diversos benefícios, inclusive mais tempo para estudar e buscar melhores condições de trabalho. “Todo mundo quer ter uma coisinha a mais. Eu quero trabalhar, eu quero ter uma jornada de trabalho menor do que a que eu tenho hoje. Ou seja, eu não quero mais trabalhar 48 horas, 40 horas. Eu quero colocar o fim da escala 6 por 1 porque a juventude quer mais tempo para estudar, as pessoas querem mais tempo para ficar em casa”, afirmou Lula.
AVANÇOS TECNOLÓGICOS – O presidente frisou ainda que seu governo não é contra os avanços tecnológicos, mas destacou que eles devem vir acompanhados de benefícios para o trabalhador. “Às vezes eu fico preocupado quando a gente fala, porque dá a impressão de que a gente está contra os avanços tecnológicos. Então a minha pergunta é a seguinte: os avanços tecnológicos não deveriam ser acompanhados de aumento de salário, de ganho de produtividade? Não deveriam ser acompanhados de redução da jornada de trabalho? O dado concreto é esse: nós precisamos avançar em muitas coisas para melhorar a vida do povo, porque os avanços tecnológicos são absurdos”.
CATEGORIAS DIFERENCIADAS – O presidente também esclareceu que a proposta para o fim da escala 6 x 1 não é rígida e pode ser ajustada conforme o tipo de atividade. Para Lula, que mostrou confiança na aprovação do Projeto de Lei, casos específicos deverão ser negociados pelas categorias. “É importante que a gente saiba o seguinte: nós temos que deixar uma brecha para, se precisar ter contrato coletivo em função de categorias diferenciadas, você ter uma brecha de negociação. Não pode ter uma coisa rígida para todas as categorias. Você tem que permitir que haja uma negociação. Mas nós temos que ter a redução. As pessoas precisam de mais descanso, mais lazer”, afirmou.
Fonte: Agência Gov | via Planalto




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