O Rio Grande do Norte passou a contar com uma lista oficial de 31 espécies de mamíferos ameaçadas de extinção ou consideradas desaparecidas do território potiguar. Divulgada pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do RN (Idema) na última quinta-feira (29), a relação reúne animais que enfrentam diferentes níveis de risco, desde espécies consideradas vulneráveis até aquelas classificadas como regionalmente extintas.
Entre os animais que já não são encontrados no território estadual estão a onça-pintada (Panthera onca), a anta (Tapirus terrestris) e o queixada (Tayassu pecari). A lista também inclui a onça-parda (Puma concolor), classificada como criticamente em perigo, e o tatu-bola-da-caatinga (Tolypeutes tricinctus), considerado provavelmente extinto no RN.
Para o ambientalista Mário Gomes, a publicação representa um marco para a conservação da biodiversidade potiguar, mas também evidencia a situação dos ecossistemas estaduais. Segundo ele, o desaparecimento de espécies como a onça-pintada, a anta e o queixada não deve ser compreendido apenas como a perda de animais, mas como um sinal de desequilíbrio ambiental e de transformações nas paisagens naturais.
“Não deve ser tratado apenas como uma perda de animais, mas como um sinal de desequilíbrio ambiental e de transformações profundas nas paisagens naturais do estado”, avalia em entrevista à Agência Saiba Mais.
Gomes chama atenção para as funções ecológicas desempenhadas por esses mamíferos. A onça-pintada, por ocupar o topo da cadeia alimentar, contribui para regular populações de outras espécies. Já a anta atua na dispersão de sementes e participa dos processos de regeneração das florestas. O desaparecimento desses animais, portanto, pode provocar impactos que ultrapassam as próprias espécies e atingem o funcionamento dos ecossistemas.
Outro ponto de preocupação é a situação da onça-parda, classificada como criticamente em perigo. Para o ambientalista, a sobrevivência do animal depende da manutenção de grandes áreas de vegetação preservada. A fragmentação dos habitats, o desmatamento, a expansão das atividades agropecuárias, a caça e os conflitos com seres humanos estão entre os fatores que podem comprometer sua permanência no território potiguar.
Pesquisadores de universidades do RN participaram do levantamento
A elaboração da lista contou com pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) e da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), além de especialistas em mamíferos de outras instituições. O trabalho conjunto para avaliar o risco de extinção das espécies no território potiguar começou em 2025.
A análise adotou critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que considera aspectos como tamanho das populações, velocidade de declínio, distribuição geográfica, grau de endemismo e dependência de habitats preservados.
A classificação distribui as espécies em cinco categorias: regionalmente extintas, provavelmente extintas, criticamente em perigo, em perigo e vulneráveis. A diferença entre elas permite identificar situações distintas, desde o desaparecimento regional de uma espécie até condições de vulnerabilidade que exigem atenção e medidas preventivas.
Além de ampliar o conhecimento sobre a fauna potiguar, o levantamento deverá servir de referência para a elaboração de estratégias de proteção das espécies e dos ambientes onde vivem.
O Idema aponta que as informações poderão subsidiar iniciativas estaduais de conservação e contribuir para a criação de novas Unidades de Conservação. O documento também poderá apoiar ações relacionadas aos Planos de Ação Nacionais (PANs), desenvolvidos pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para proteger espécies ameaçadas.
A publicação também terá impacto na análise de empreendimentos submetidos ao licenciamento ambiental. A identificação de mamíferos ameaçados nas áreas de influência dos projetos poderá interferir nos estudos técnicos e nas decisões sobre a autorização das atividades.
Conforme a norma, a presença dessas espécies poderá levar à exigência de estudos específicos, monitoramento da fauna e medidas para reduzir ou compensar impactos ambientais. Dependendo da avaliação técnica, também poderão ser estabelecidas condicionantes, solicitadas mudanças na localização dos projetos ou negado o licenciamento, caso seja identificada inviabilidade ambiental.
A relação complementa a primeira Lista Oficial das Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção do Rio Grande do Norte, instituída no início de 2026 pela Portaria-SEI nº 52/2026. O documento anterior contemplava aves, répteis e anfíbios, peixes, mamíferos aquáticos e alguns grupos de insetos.
Confira as 31 espécies e suas classificações:
Regionalmente extintas (RE)
Queixada (Tayassu pecari)
Onça-pintada (Panthera onca)
Anta (Tapirus terrestris)
Provavelmente extinta (CR PEX)
Tatu-bola-da-caatinga (Tolypeutes tricinctus)
Criticamente em perigo (CR)
Onça-parda (Puma concolor)
Morcego-de-língua-comprida-de-vieira (Choronycteris vieirai)
Em perigo (EN)
Macaco-prego-galego (Sapajus flavius)
Ouriço-cacheiro (Coendou prehensilis)
Ratinho-do-cerrado (Necromys lasiurus)
Poco-do-mato (Dicolysia tajacu)
Gato-do-mato (Leopardus tigrinus)
Morcego-orelhudo-de-funil-brasileiro (Natalus macrourus)
Morcego-raiz-de-espada-de-tomo (Lonchophylla aurita)
Vulneráveis (VU)
Mucurazica (Caluromys philander)
Cuíca-lanosa-de-pelo-longo (Marmosa demerarae)
Tapiti-comum (Sylvilagus brasiliensis)
Guariba-de-mãos-ruivas (Alouatta belzebul)
Macaco-prego-amarelo (Sapajus libidinosus)
Cuíca-de-garganta-laranja (Dasypus kappleri)
Rato-bolinha-da-caatinga (Calomys expulsus)
Veado-catingueiro (Subulo gouazoubira)
Lontra-neotropical (Lontra longicaudis)
Jaguarundi (Herpailurus yagouaroundi)
Jaguatirica (Leopardus pardalis)
Furipterus horrens
Nyctinomops aurispinosus
Morcego-de-cauda-solta (Nyctinomops laticaudatus)
Nyctinomops macrotis
Morcego-focinhudo (Anoura geoffroyi)
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