Os números mostram um cenário preocupante. Mais que isso, uma tendência de agravamento. No Rio Grande do Norte, a média é de três boletins de acidentes graves por dia envolvendo apenas motocicletas, com pelo menos uma pessoa morta. A situação é bem pior no maior hospital público do estado: 700 acidentados por mês, com 8 internações por dia, todos em consequência de quedas de moto.
Em 2025, a Secretaria da Segurança Pública e da Defesa Social do Rio Grande do Norte (SESED), por meio da Coordenadoria de Informações Estatísticas e Análises Criminais (COINE), registrou 928 acidentes com motocicletas no estado. A média é de 77 sinistros por mês, ou seja, quase três ocorrências por dia registradas em Boletins de Ocorrência.O dado mais alarmante está na letalidade: 374 dos acidentes registrados pela Polícia Civil terminaram em morte, o que representa cerca de 40% dos casos — uma proporção extremamente alta. Na prática, isso significa que, em 2025, pelo menos uma pessoa morreu por dia em acidentes envolvendo motos no estado.
Quando se observa 2026, o quadro não melhora. Só no primeiro trimestre do ano já foram 182 acidentes, sendo 97 deles com mortes. Isso indica uma taxa de letalidade ainda maior, acima de 50%. É sinal de que os acidentes estão se tornando mais graves ou menos evitáveis.
Na leitura dos dados apresentados pela COINE, a pedido do BNews Natal, alguns pontos chamam atenção. São eles:
- Alta letalidade: o índice de mortes é muito elevado em comparação a outros tipos de acidentes de trânsito.
- Crescimento proporcional em 2026: menos acidentes que 2025 (proporcionalmente), mas mais fatais.
- Vulnerabilidade do motociclista: motos oferecem pouca proteção, o que aumenta drasticamente o risco de morte.
Esse tipo de estatística costuma estar associado a fatores como excesso de velocidade, imprudência, falta de equipamentos de proteção adequados e também condições das vias.
Números do maior hospital do RN são ainda mais alarmantes
Os números apresentados pela SESED são preocupantes. No entanto, ainda mais alarmantes é o total de acidentados socorridos ao Hospital Walfredo Gurgel, em Natal, a maior unidade hospitalar da rede pública do estado.
De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde Pública (SESAP), somente de janeiro a março deste ano, o HWG registrou a notificação de 2.103 atendimentos de pessoas vítimas de acidentes de moto — o que representa uma média de mais de 700 entradas no pronto-socorro do hospital. Resultado: mais de 23 ocorrências por dia.
E tem mais. Do total de pessoas que deram entrada na unidade, 719 acidentados precisaram ficar internados.
O cenário de alta incidência nos acidentes com motocicletas no Rio Grande do Norte não impacta apenas a segurança no trânsito — ele tem reflexos diretos e profundos na rede pública de saúde, que já opera sob pressão, especialmente em Natal.
As ocorrências envolvendo motos, em geral, resultam em vítimas com quadros mais graves: politraumatismos, fraturas expostas, traumatismos e necessidade de cirurgias de alta complexidade. Esse perfil exige atendimento especializado, ocupação prolongada de leitos e uso intensivo de recursos hospitalares, o que contribui para a sobrecarga das unidades de urgência e emergência, como prontos-socorros e hospitais de referência.
Geraldo Neto, diretor-geral do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, explicou ao BNews Natal que os acidentes de moto ainda impactam a instituição. E poderia ser pior.
Só não é porque a Barreira Ortopédica de Macaíba consegue concentrar os atendimentos de baixa e média complexidade. “Hoje, a gente fica com os pacientes mais graves. Porém, esses pacientes têm um impacto, considerando que esses mesmos pacientes, muitas vezes, ocupam leitos de terapia intensiva. Eles passam muito tempo dentro dos leitos clínicos”, destacou, ainda levando em consideração as sequelas, que fazem também com que o tempo de permanência aumente”, acrescentou.
O diretor revela ainda que uma pessoa internada por acidente de moto fica no HWG, em média, de duas a três semanas ocupando um leito no hospital.
Morte de motoentregador virou símbolo
Um exemplo claro e direto do quanto os acidentes envolvendo motocicletas carecem de atenção é o caso do motoentregador José Richardson Alves da Silva, de 27 anos. Ele morreu na noite de 7 de abril deste ano após uma colisão na Av. Engenheiro Roberto Freire, no bairro Capim Macio, um dos trechos mais movimentados da Zona Sul de Natal.
O socorro médico demorou duas horas para chegar ao local, e quando a ambulância apareceu os paramédicos serviram apenas para constatar a morte do jovem.
A Secretaria Municipal de Saúde informou que todas as ambulâncias do SAMU Natal estavam em atendimento a outras ocorrências ou indisponíveis devido à retenção de seus equipamentos em unidades hospitalares que atendem casos de urgência e emergência.
“A retenção de equipamentos do Samu Natal nos serviços de saúde é um problema crônico enfrentado há anos no Rio Grande do Norte, especialmente na capital. O cenário se torna ainda mais grave diante do aumento no número de acidentes registrados, principalmente aqueles envolvendo motociclistas”, informou a SMS.
RN tem mais motos que carros
Esse cenário de saúde comprometida em razão do aumento dos acidentes envolvendo veículos de duas rodas se torna ainda mais crítico quando analisado junto ao crescimento da frota. Hoje, o RN tem mais motos que carros em circulação.
Dados do Departamento Estadual de Trânsito do Rio Grande do Norte (DETRAN-RN) apontam que o estado já possui mais de 1,7 milhão de veículos, sendo 691 mil motocicletas ou motonetas — número que já supera o total de carros, com cerca de 689 mil unidades.
Na capital, o volume também impressiona: circulam diariamente cerca de 240 mil automóveis e 132 mil motos/motonetas.




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